Lições Bíblicas, Devocionais, Mensagem
Sábado, 20 de Outubro de 2007

A Justificação pela fé em Cristo

Introdução

A precedente apresentação de Paulo da situação difícil e desesperadora da humanidade pecadora perante um Deus justo cria um senso de desespero. Este é o efeito intencional. Pois a plena glória do plano de salvação de Deus só é completamente apreciada do ponto do desespero. Paulo agora revela, embora de forma condensada, um sumário da justiça de Deus, ou seja, sua atividade salvadora em favor de homens e mulheres.

 

I – A Salvação pela Morte de Cristo (3.21-26).

O fato de que a seção sobre a ira de Deus concernente à condição humana ser muito mais longa (Rm 1.18—3.20) que sua apresentação da justiça de Deus requer comentário. Deve ser mantido em mente que esta é uma carta, não um tratado sistemático. Ainda que Paulo esteja descrevendo a mensagem do evangelho em forma um tanto quanto sistemática, ele nunca esquece que entre sua audiência encontram-se judeus que poderiam fazer objeções a esta apresentação. A crença de Paulo de que o judeu pudesse reivindicar não ter vantagem especial sobre o gentio em termos de pecado e julgamento tinha atraído oposição anteriormente. Assim, ele persegue esta linha de argumento de modo extenso em Romanos 2.1 a 3.8.

1.1 A Justiça de Deus em Jesus.

Quando Paulo passa a descrever a forma como a justiça de Deus foi expressa em Jesus Cristo, ele apresenta um entendimento teológico do significado da morte de Jesus que era compartilhado por cristãos judeus e gentios igualmente. Em conseqüência disso, este tópico requer menos atenção. De fato, a maneira sucinta com a qual ele descreve o meio de salvação em Romanos 3.21-26 sugere que ele está repetindo matéria que era conhecida por estes crentes. É comumente suposto que Paulo está utilizando expressões de credo da igreja primitiva nos versículos 25 e 26a, e, talvez, também no versículo 24 (uma das razões para esta visão é o número de palavras não-paulinas nesta seção). O leitor notará que o único aspecto da salvação que Paulo irá enfatizar é o que diz respeito à fé somente (Rm 3.27—4.25), visto que o assunto era controverso.

1.2.  Declaração de Abertura.

A declaração de abertura de Paulo (v. 21) — de que o modo de salvação de Deus é “sem a lei” e também em concordância com “o testemunho da Lei e dos Profetas” — indica sua preocupação de que sua posição sobre a lei seja entendida corretamente. Por um lado, a justiça não deve ser obtida através do sistema definido pela lei ou mediante a pessoa ser integrante do povo da lei. Por outro lado, as Escrituras do Antigo Testamento testificam sobre a justiça de Deus e como ela pode ser obtida. O tempo presente de “ter o testemunho” denota que o testemunho das Escrituras continua falando aos judeus e a todos os que derem ouvidos (cf. Rm 1.2; 3.2; 4.23,24), mesmo em nossos dias.

 

a)      O evento essencial da Justiça de Deus: A Crucificação de Cristo.

Em Romanos 1.17,18, a justiça de Deus e sua ira foram apresentadas como duas atividades divinas simultâneas e contínuas que são reveladas para o mundo. Aqui, quando Paulo abre o tópico da justiça de Deus, ele especifica que “se manifestou” (v. 21). Ele está se referindo não ao processo, mas ao evento essencial que o inaugurou — a crucificação de Cristo, “ao qual Deus propôs para propiciação” (v. 25).

ü PROPICIAÇÃO: A tradução de hilasterion (“propiciação”) continua sendo ponto de debate. A tradução da NVI (“sacrifício para propiciação”) sugere que Cristo é o meio da propiciação (veja Dunn, Morris, 1955-1956, pp. 33-43), ao passo que muitos comentaristas preferem “lugar de expiação/propiciação” ou “lugar/assento de misericórdia; propi­ciatório” (e.g., Fitzmyer; Stuhlmacher; Gundry-VoIf, pp. 282-283) — que é o que significa em sua única outra ocorrência no Novo Testamento (Hb 9.5, “propicia­tório”). É difícil escolher entre estas opções. Black e Dunn insistem que estas duas opções não devem ser consideradas mutuamente exclusivas. Felizmente para nós, ainda que o verdadeiro referente de hilasterion seja difícil determinar, a verdade teológica não é. Quer hilasterion se refira ao propiciatório que tampa a arca na qual o sangue da oferta do pecado pela nação era aspergido anualmente no Dia da Expiação (Lv 16), quer se refira ao sacrifício oferecido a Deus por propiciação, é o sistema sacrifical judaico que está sendo lembrado. Está claro, como a referência “no seu sangue” confirma (Rm 3.25b), que a morte sacrifical de Cristo está sendo representada por esta imagem. Assim como o que era oferecido no altar era sacrificado para pagar a punição de quem tinha pecado, assim Cristo foi oferecido para suportar a pena pelo pecado da humanidade.

ü DOUTRINA DA EXPIAÇÃO SUBSTITUTIVA: O que a pouco foi dito é o que se chama de doutrina da expiação substitutiva. Cristo foi morto como o substituto por todos os homens e mulheres. Nosso pecado foi transferido para Ele; sua vida, ou justiça, nos é dada (cf. Rm 8.3; 2 Co 5.21; Gl 3.13). Este entendimento da morte de Cristo vigorava nos dias da igreja primitiva. Paulo disse aos coríntios que a tradição que ele recebera declarava “que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras” (1 Co 15.3b).

ü A FÉ NO SANGUE DE CRISTO: O sacrifício para propiciação é “pela fé no seu sangue” (Rm 3.25). Embora não haja uma vírgula que separa “pela fé” e “no seu sangue”, é melhor entender estas frases separadamente. Como argumenta Käsemann, “pela fé no seu sangue” não tem paralelo no Novo Testamento, e nas cartas de Paulo o termo pistis (fé) não é seguido pela preposição en (em). O que Paulo está dizendo é que o “sacrifício para propiciação” é apropriado pela fé e alcançado no seu sangue, quer dizer, pela morte sacrifical de Cristo.

üEXPIAÇÃO OU PROPICIAÇÃO?  Debates vigoram nos círculos teológicos acerca deste ponto: O sacrifício para propiciação deve ser entendido como “expiação” ou como “propiciação”. Expiação diz respeito à remoção do pecado; propiciação, ao apaziguamento de Deus ou à satisfação de sua ira. C. H. Dodd mostra que o conceito de propiciação fora totalmente perdido no uso da LXX do termo grego hilasterion e seu cognatos, e que a noção de propiciação era mais um conceito pagão que um ensino bíblico. O sacrifício de Cristo, de acordo com Dodd, deve ser entendido como sacrifício expiatório que tratou do pecado e da culpa humana. 

O argumento de Dodd tem enfrentado muita oposição. Um dos seus críticos primários é L. Morris (1955, pp. 167-194), que defende a visão mais tradicional de que hilasterion envolve propiciação. Entre os vários argumentos que ele apresenta, há um que é retirado do contexto precedente. Depois de três capítulos sobre a ira de Deus, o termo hilasterion tem de dar alguma indicação sobre como a ira é desviada do crente.

Parece inconcebível (levando em conta Rm 1.18—3.20) que a solução apresentada por Paulo do pecado humano não trate desta realidade. E certamente temos de entender que o sacrifício de Cristo é suficiente para afastar a ira de Deus do crente. Contudo, Gundry-Volf (pp. 281-282) arrazoa que não se conclui necessariamente que devamos entender este processo como a obtenção de uma mudança na disposição de um Deus irado. É porque a mensagem repetida em Romanos 3 é que Deus, em sua misericórdia, tomou a iniciativa de prover uma solução efetiva: “Deus o apresentou como sacrifício para propiciação” (v. 25a, NVI; “ao qual Deus propôs para propiciação”, RC; ênfase minha).

b)      A atividade salvadora

A idéia de que sua atividade salvadora é apresentada ou posta em exibição pública representa significativa transição na história de salvação. Os lugares da obra de salvação de Deus ultrapassaram as velhas fronteiras da nação de Israel. O seu método de tratar do pecado humano já não se limitava ao Santíssimo Lugar do templo, onde só um homem podia entrar uma vez por ano. Sua justiça moveu-se para fora, ao ar livre, onde todos têm acesso; em cima de um monte, onde todos podem ver; numa cruz, onde todo o mundo pode se ajoelhar ao seu pé.

Nesta passagem, é traçada outra distinção entre a natureza do sacrifício feita no templo e o sacrifício de Cristo. A morte de Cristo alcançou o que todas as repetidas ofertas do passado não fizeram: tratar do pecado de forma definitiva e cabal. Paulo diz que Deus ignorou os pecados do passado (v. 25). Em outras palavras, Deus, “na sua tolerância” (NVI; i.e., restrição; “sob a paciência”, RC), não exigiu a pena pelos pecados cometidos. Enquanto que o primeiro hilasterion era suficiente por um tempo, o pagamento total pelo pecado foi feito na cruz.

Quando Paulo chega ao fim deste tratamento condensado do significado da morte de Cristo, ele afirma duas vezes que era “para demonstrar a sua justiça” (vv. 25b,26a) que Deus apresentou Cristo como sacrifício para propiciação. A palavra grega dikaiosyne é traduzida aqui por “justiça”.

O que Deus demonstrou a respeito de sua justiça? Ela trata do passado e do presente, e de tal modo que é vista como justa (v. 26b): 

1)          É mostrado que Deus é justo em suas ações para com as pessoas do concerto no passado, porque Ele havia “deixado impunes os pecados anteriormente cometidos” (v. 25, ARA). Quer dizer, a oferta do sacrifício perfeito, Jesus Cristo, era a medida apropriada para tratar definitivamente dessas transgressões que tinham sido tratadas pelo sistema sacrifical, mas que haviam, de algum modo, permanecidas impunes.   

2)           Mas também é mostrado que Deus é justo em suas ações no presente, pois o sacrifício para propiciação é a plena provisão para o pecado de todo o mundo, e não só dos judeus. Nosso foco neste ponto foi no motivo do hilasterion, com seu plano de fundo no sacrifício que era feito no templo. Há duas metáforas que Paulo usa aqui para explicar o significado da morte de Cristo:

ü      Uma, retirada do tribunal de justiça, é a linguagem da justificação ou absolvição (v. 24). Por causa da cruz, o crente é declarado “inocente”. 

ü    A outra vem do mundo da escravidão. A libertação do crente do cativeiro do pecado é transmitida com o termo redenção (apolytrosis). Comum ao conceito de redenção vigente no século I, estava a idéia de soltar alguém da escravidão mediante pagamento de um preço ou resgate (L. Morris, 1993, p. 785). No Antigo Testamento, Deus é descrito como o Redentor do seu povo, aquEle que o redime da escravidão, quer do Egito (e.g., Dt 7.8) quer da Babilônia (e.g., Is 52.3). Em tais referências, o aspecto da metáfora que nos é transmitida é a idéia de libertação em vez de pagamento de um resgate. Isto também ocorre no uso que Paulo faz do termo. Morris faz distinção útil aqui: Não há nada no pensamento de Paulo acerca de alguém a quem o pagamento possa ser feito. Mas isso não significa que não havia custo — o custo foi a vida de Cristo. Fé é o meio pelo qual todo indivíduo sem exceção entra na salvação oferecida por Deus através de Jesus Cristo. É porque o indivíduo não tem outro meio disponível. O esforço humano é insuficiente, pois “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (v. 23). A glória de Deus tem figurado proeminentemente na carta até aqui, como algo que é rejeitado por muitos (Rm 1.21) e buscado por poucos (Rm 2.7,10). Romanos 3.23 revela que esta busca, provindo da iniciativa humana, é vã.

O que é esta glória que os seres humanos buscam, mas ficam aquém dela? No Judaísmo do Segundo Templo, a glória tinha sido associada com a justiça que o casal original conheceu no jardim do Éden antes da queda (e.g., em Ap Mos 21.6, Adão diz a Eva: “Tu me alienaste da glória de Deus”). Conseqüentemente, os escritores apocalípticos descreviam a esperança dos judeus fiéis em termos de restauração da glória (1 Enoque 50.1; 4 Esdras 7.122-125; 2 Baruque 51.1). Este é o plano de fundo da “glória” em Romanos 3.23. A glória que as pessoas careciam é o estado de relação certa com Deus que caracterizava a experiência de Adão e Eva no jardim do Éden.

publicado por diaconosergiochristino às 13:04
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